História da Clara

Capítulo 1

A Clara é casada, tem 1 filha chamada Beatriz e trabalha a tempo inteiro. Tem uma vida agitada e ao longo do dia desdobra-se no papel de mãe, esposa, mulher, trabalhadora e qualquer outra função que seja necessária para o bem-estar da sua família.

Depois de ter a sua filha, ela passou a ser a sua maior prioridade na vida. O bem-estar e a saúde da Clara foram ficando para 2º lugar. A Clara sempre variou o peso ao longo da sua vida, mas atualmente encontra-se com 15kg a mais do peso que desejava. Ao longo dos anos, foi tentando algumas dietas, mas nada muito sério ou que tivesses resultados duradouros.

O seu trabalho é bastante exigente e stressante, o que torna a situação mais complicada, porque a Clara refugia-se na comida sempre que está em baixo. Come umas bolachinhas quando o dia não lhe corre bem, come um bolinho quando está chateada… A verdade é que a Clara não presta muito atenção ao que come. Se está com a filha, come um pacote de batatas fritas, se está a ver uma série come um balde de pipocas sozinha … Está sempre acompanhada por algum snack e tem sempre vontade de comer “algo docinho” depois do jantar.

Como é a cozinheira em casa, estes hábitos alimentares refletem-se também na Beatriz que, com 10 anos, já está um pouco acima do peso recomendado.

Num dia, incomodada com um problema que tinha tido no trabalho e insatisfeita com o jantar, sentou-se no sofá a ver televisão e abriu um pacote de bolachas. No intervalo do episódio percebeu que já tinha comido o pacote todo. Decidiu então ir à cozinha buscar algo mais para a acompanhar na 2º parte do episódio e para reprimir a frustração que tinha dentro de si. Escolheu uma tablete do seu chocolate preferido: chocolate de leite com avelãs. Tinha a certeza que isto lhe traria o conforto que estava à procura. No entanto, quando a série terminou, já não restava um único quadrado de chocolate e a Clara estava maldisposta. Este era um sentimento familiar para si. Era frequente a Clara comer mesmo sem fome e só parar quando já estivesse com dores de barriga ou enjoada.

Quando foi para a cama, demorou a adormecer com o desconforto que sentia e com os pensamentos de culpa que inundavam a sua cabeça. “Porque é que eu comi isto tudo…” pensava a Clara, enquanto se revirava na cama a tentar adormecer. “Amanhã vou deixar de comer porcarias! Não toco mais em chocolates, bolachas ou o que quer que seja que tenha açúcar!”, prometeu a si mesma.

Capítulo 2

A Clara decidiu que tinha chegado ao seu limite. Este era o momento de mudar. Ela estava descontente com o seu peso e com o seu corpo e estava farta de se sentir culpada cada vez que comia um doce, estava farta de ir dormir cheia e desconfortável depois de se se vingar na comida, no final de um dia mau. Isto não era saudável e a Clara não podia continuar com isto!

Assim, tomou uma decisão: ia cortar o mal pela raiz e deixar de comer doces. Encontrou na internet uma dieta que prometia fazer um detox de açúcar durante 30 dias e decidiu pôr-se à prova. “Quão difícil pode ser?”, pensou com a Clara com os seus botões.

Determinada a mudar, começou o programa de detox. Deitou fora todos os chocolates que tinha em casa e toda a doçura, menos as bolachas e os cereais da filha, que guardou longe da sua vista. Comprou legumes para fazer “sumos verdes” de detox, para libertar o seu corpo das garras do açúcar.

Na primeira semana, correu tudo bem. A Clara estava motivada e nada abalava a sua força de vontade. Não comeu chocolate quando chegou a casa stressada do trabalho, não comeu pipocas quando viu a sua novela à noite e não comeu sobremesa quando foi jantar fora no fim de semana.

A Clara sentia-se orgulhosa do seu esforço, mas na verdade estava a custar mais do que tinha imaginado. A comida era a sua forma de lidar com as emoções e ela estava mais dependente do que achava.

Apesar de estar feliz pela sua conquista, ficava insatisfeita no final de cada refeição, sentia que lhe faltava algo.

Quando estava em baixo, tinha uma luta interna entre o seu novo eu, que tinha jurado não comer mais açúcar, e o seu antigo eu, que a encorajava a comer as bolachas da filha. Era difícil resistir à tentação, mas a Clara estava a conseguir. Só não sabia por quanto mais tempo conseguiria aguentar, até porque em breve os supermercados iriam estar cheios de ovos da Páscoa e amendoas de chocolate. Chocolate de leite, preto e até branco - o seu preferido.

Como é que a Clara se iria controlar no almoço da Páscoa? A sua família fazia sempre sobremesas deliciosas. E as amêndoas de chocolate branco que ela tanto gostava... e o resto do ovo da Páscoa que a filha não iria comer... Parecia uma tarefa impossível.

Capítulo 3

A meio de março a Clara tinha o jantar anual de aniversário da empresa, um convívio que nunca faltou e pelo qual ansiava todos os anos. Contudo, este ano ela estava com receio do jantar: do que ia comer ou não, das sobremesas que ia ter à sua disposição. A dificuldade estava no nível máximo visto que era um buffet e ela teria ao seu dispor inúmeras iguarias.

A Clara preparou-se mentalmente para o jantar enquanto se arranjava.

“Não vais comer doces hoje”, pensou enquanto penteava o cabelo.

Nem sequer uma fatia de bolo!”, reforçou enquanto se maquilhava.

“Tu consegues não comer!”, disse para si mesma enquanto saía de casa.

Durante o jantar, a Clara estava com a atenção máxima. Teve cuidado com o que comia, para não ficar demasiado cheia, bebeu apenas água e não comeu entradas sequer! Tudo estava a correr bem.

Contudo ela não se estava a divertir tanto como nos anos anteriores porque estava a pensar como iria resistir às sobremesas. Estava mais calada do que o normal, perdida nos seus pensamentos e preocupações com a comida. Até os seus colegas de trabalho repararam e perguntaram se estava tudo bem.

Depois do jantar terminar, a Clara manteve-se na mesa enquanto toda a gente se levantava para ir buscar sobremesas. Se ela não saísse da mesa, não podia cair na tentação.

Parecia uma boa estratégia… até que a Teresa, a sua colega de trabalho mais próxima chegou à sua beira com 2 pratos – um para ela e outro para a Clara.

“Trouxe-te uma fatia de red velvet, o teu bolo favorito! Pareces um pouco em baixo hoje, isto vai-te animar”, disse-lhe a Teresa enquanto sorria. Como é que a Clara podia negar este gesto tão simpático da sua colega? E a verdade é que este era o seu bolo favorito… e tinha ótimo aspeto!

A Clara agradeceu à Teresa com um sorriso forçado e decidiu que apenas uma fatia não faria mal. Quando deu a primeira dentada no bolo sentiu as suas energias renovadas. Estava com tantas saudades de comer algo docinho!

Terminou de comer a fatia em velocidade recorde e ao ver as pessoas à volta dela na mesa a desfrutar das suas respetivas sobremesas pensou “ perdidos por 100, perdidos por 1000”, levantou-se e foi buscar mais sobremesas.

No final da noite, quando chegou a casa estava completamente cheia, com o botão das calças desapertado por debaixo da blusa. As dores de barriga e enjoos familiares encheram-na de melancolia e frustração por ter falhado.

Infelizmente, a única ferramenta que ela tinha para lidar com as emoções era comer ou chorar, e visto que estava cheia recorreu à segunda.

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